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Archive for the ‘Rosacruz’ Category

Herói

 

 

O HERÓI

Em nosso relacionamento com o mundo, podemos nos colocar numa postura, que eu chamaria de “Postura do Herói”. Muitas vezes, num esforço para sair da postura de vítima, caímos no extremo oposto. Somos vítimas quando nos sentimos determinados cem por cento pela realidade, e bancamos o herói quando sentimos que a realidade é cem por cento determinada por nós. O herói é o dominador, o controlador, aquele que se julga senhor e dono das outras pessoas, é aquele que cria a visão da realidade como resultado de sua própria vontade, é aquele que acha que só existem duas alternativas no relacionamento: ou ser dominado ou ser dominador, ou ser escravo ou ser o senhor, ser menos ou ser mais, ser perfeito ou ser a pior coisa que existe. É a postura do oito ou oitenta. O herói extrai alegria da tristeza do outro, ele se sente bem se provar que o outro é mau. O herói, deste modo, peca por excesso, sente-se o único responsável pelo que está ocorrendo à sua volta e, por isso, assume mais do que pode cumprir. Ele se insurge contra a realidade e vai além do que lhe é possível. Se na postura de vítima nos negamos, na postura de herói nós negamos o outro, sentimo-nos o único sujeito da relação humana e consideramos as outras pessoas como objetos.

O herói se coloca em nível superior ao das outras pessoas, escondendo um profundo sentimento de inferioridade. É o todo poderoso, o que sabe tudo, o que sempre tem razão, o imbatível, o melhor. É aquele que perdeu a simplicidade de estar no mundo, é o que não sabe e não sabe que não sabe; daí, a sua dificuldade em aprender. Supõe saber tudo e perde com isso a capacidade de perguntar, a capacidade espontânea de fazer perguntas, de perguntar o que não sabe. Em contrapartida, seu comportamento é sempre o de ensinar, de julgar, de analisar e de orientar os outros. É o dono da verdade. Por isso, nunca diz: “Eu não sei”. Nunca pede ajuda. Ele se julga como padrão dos outros e se relaciona com o mundo através de uma avassaladora programação de dogmas, de verdades feitas, porque as pessoas serão boas, honestas, verdadeiras, inteligentes, se coincidirem com o seu modo de pensar, de sentir e de agir.

Internamente, o herói raciocina que as pessoas devem ser feitas à sua imagem e semelhança, as pessoas devem ser da maneira que ele quer que elas sejam, os pensamentos das outras pessoas terão de ser como os seus próprios pensamentos, o comportamento dos outros tem que ser como ele acha que deve ser. O herói é semelhante a Proskrusts na lenda antiga, que punha todas as pessoas numa cama do mesmo tamanho. Se as pessoas fossem compridas, ele cortava-lhes as pernas; se fossem muito curtas, esticava-as até que coubessem na cama.

Há pessoas que querem enquadrar os outros no seu moralismo, nos seus dogmas, nas suas verdades, e isto é a pior forma de tortura. Por isso, o herói é aquele que sofre, esconde ao máximo o seu sofrimento e gosta de fazer os outros sofrerem. As suas críticas são tentativas de enquadrar alguém nos seus padrões. O herói é a pessoa que não suporta as diferenças, ignorando que aquilo que faz o mundo ser mundo é a união das diferenças, ignorando também que só podemos amar outra pessoa por suas diferenças em relação a nós, porque naquilo em que ela é igual estamos amando não a ela, mas a nós mesmos.

Só podemos crescer a partir da diferença. A função da diferença é o crescimento. Só podemos aprender com o outro naquilo que ele pensa diferentemente de nós, porque naquilo em que ele pensa igualmente não há nenhuma descoberta, mas apenas confirmação do que já sabíamos. O herói, na sua visão de onipotência, evita ver e aceitar os limites do mundo. Para ele não existem limitações de tempo, de espaço, de cor, normas, saúde e condições. Há nele a crença na possibilidade de ser super: super-homem, super-profissional, supercapaz, superpai, supermãe, super-inteligente. É o delírio da onipotência, é a interiorização de um ideal de vida baseado na possibilidade de ser um super-herói; é a crença de que podemos ser mais do que nós somos. E sempre que bancamos o herói em nosso encontro com o mundo, depois nos sentimos vítimas. A toda atenção excessiva corresponde depois uma depressão, a todo excesso segue-se naturalmente um recesso. Os nossos malogros e nossas frustrações advêm de termos procurado ser e realizar mais do que éramos humanamente capazes.

Essa lei é a mesma lei física de Newton: “A toda ação corresponde uma reação igual e contrária”. Se não levarmos em conta os limites das situações e agirmos como se elas não existissem, teremos em nossa vida, mais tarde, a resposta deste exagero sob a forma de sofrimento, seja ele físico, psicológico ou social. Quando nos sentimos humilhados e ofendidos, melhor será nos perguntarmos onde, como e quando quisemos ser mais do que somos, perguntar a quem quisemos dominar, controlar, e não conseguimos, pois só estamos sofrendo as conseqüências de querermos ser mais do que a própria realidade.

O herói, na sua tentativa de manipular os outros, torna-se obcecado por controle, por poder, e usa todo tipo de truques. Assim, ele banca o autoritário, o durão, o frio, o machão, o estúpido, o teimoso, o corajoso, o desafiador, aquele que quebra mas não verga. Herói é o que esconde o medo sob a capa da coragem e depois de frustrada a sua tentativa de controlar os acontecimentos, vai bancar o desamparado, o desprotegido, o humilhado, o ofendido, o magoado, o injustiçado. E é assim que perdemos a nossa liberdade individual. O mais interessante a respeito de uma pessoa obcecada pelo desejo de controlar o semelhante, é que ela sempre acaba por ser controlada, ela se prende na própria teia, tecida para prender os outros.

Quando aprisionamos alguém, nós também nos aprisionamos. O policial que monta guarda à porta da cela para que o marginal não fuja, está tão preso quanto ele. O herói é como o diamante, fere todo mundo e não quer ser ferido por ninguém. É o durão inflexível e, em nome da personalidade, ele quer ser um só, igual em todos os lugares com todas as pessoas e em todas as circunstâncias. As pessoas e o mundo que se modifiquem para se adaptarem a ele. Ele é o centro do universo, ele é um ponto fixo em torno do qual devem girar todas as outras pessoas. E nessa fantasia de ser permanente, de ocupar uma posição fixa na vida, ele se agarra a ela com unhas e dentes. Com o inabalável propósito de não arredar pé dali, vai tendendo, pouco a pouco, a se confundir com os seus papéis na vida, as suas categorias, os seus adjetivos. Ele já não é ele, é apenas o chefe, o pai, o ocupante de um cargo, o rico, o inteligente, o famoso, o amado, o sensato. E assim, vai abdicando do seu universo interior, da sua humanidade, da sua vida verdadeira, da sua origem simples e alegre, abdicando do seu Ser, que é parte de um universo. Passa mecanicamente a ser uma peça sofredora, escrava e escravizante.

Setenta por cento do nosso organismo é água e isto deveria nos mostrar o quanto o organismo é flexível, mutável, adaptável às situações. A autoridade não vem das pessoas, mas dos fatos, da realidade da situação. Ter personalidade humana é ser capaz de fazer uma síntese com o ambiente que nos cerca, não ser mais ou menos adaptado às circunstâncias, mas estar com elas em harmonia, em ligação, em reciprocidade e integração.

O herói se revolta contra a realidade, ele está sempre em desequilíbrio com relação ao mundo. Na postura de herói, somos resistentes às mudanças, às mutações do mundo, porque no herói existe a crença e o desejo de ser imutável. E a principal causa dessa reação às mudanças se encontra no fato de que qualquer alteração significativa nos faz lembrar que tudo evolui, que esta vida passa e que um dia nós vamos morrer. Para não olharmos de frente o inevitável, aprendemos a fingir que controlamos a nossa existência e a dos outros e vamos acreditando falsamente que é possível permanecer sempre os mesmos num mundo cuja característica básica é a mutação. E neste afã de impedir que a vida flua como um rio, pretendendo controlar o futuro, o desconhecido, o que ainda não aconteceu, transformamos nossa vida numa competição, numa luta extenuante contra o tempo e então agimos como um cavalo de corrida.

Isto aparece na forma de pressa e de preocupação. A pressa e a preocupação provêm do fato de fazermos nossa felicidade depender sempre da expectativa de alguma coisa no futuro. Viver sempre em função do futuro, do que vem, deixa-nos sem contato com a fonte ou centro da vida, porque o amanhã nada significa, a não ser que esteja em completa ligação com a realidade do presente que se vive. Nós nos preocupamos porque nos sentimos inseguros e desejamos segurança, e porque ainda não compreendemos que não existe segurança na vida humana. Ponderemos, como é contraditório desejarmos ser estáveis e seguros num universo cuja própria natureza se caracteriza pela fluidez e pela instantaneidade. Não há absolutos para algo tão relativo como a vida. Os nossos desejos voltados para o futuro são empecilhos que nos dificultam assumir agora a responsabilidade por eles, e assim preocupamo-nos para não nos ocuparmos com o que é possível fazer agora. A pressa e a preocupação são um desejo de ter certeza de um futuro brilhante e tranqüilo. O poder de usufruir as coisas agradáveis que nos estão acontecendo é-nos negado pela preocupação constante. Nossa mente está preocupada com algo que ainda não está presente. O dom da previsão de pensar sobre o futuro, constitui a principal realização do cérebro humano. Entretanto, o modo pelo qual geralmente usamos este poder pode destruir todas as suas vantagens, pois é de pequena utilidade para nós prever possíveis acontecimentos no futuro, se isto nos tortura, se nos torna incapazes de viver plenamente o presente.

Somos heróis quando estamos sempre nos preparando para viver, ao invés de viver. Se para termos um presente agradável, precisamos da certeza de um futuro feliz, podemos desistir da felicidade. Tal certeza é impossível de se obter. Sempre haverá o desconhecido, jamais conseguiremos controlar o imprevisto. Não é que não tenhamos motivo para as nossas preocupações – apenas elas são inúteis. A vida só se vive de improviso, é sempre de repente, no rascunho, não se pode passar a limpo. Não apressemos o rio, ele corre sozinho.

Bem-aventurados aqueles que conseguem deixar a vida fluir e harmonizar-se com ela, sejam quais forem as circunstâncias. O nosso caminho de felicidade é o caminho da adaptação. Não confundamos adaptação com acomodação. A adaptação é uma mudança harmônica dentro da realidade, levando em conta as nossas possibilidades e as possibilidades dos outros. Nós somos nós e o mundo é o mundo e nós somos um com o mundo. Fazemos parte de um universo, fazemos parte de uma sociedade, fazemos parte de uma família, fazemos parte de uma empresa e só haverá dor psicológica quando, ao invés de aceitarmos o nosso papel de parte, nós quisermos ser o Todo.

Sábio é aquele que desistiu de enquadrar as pessoas, o mundo e o futuro nas suas concepções. Sábio é aquele que, através de uma harmonia pessoal, consegue sentir o seguinte: “Faço parte e quero cada vez mais integrar-me e adaptar-me à vida que canta e cai, a vida que sofre e festeja em volta de mim”. Sábio é aquele que desistiu de ser o universo e resolveu apenas viver com o universo.

(Antônio Roberto Soares)

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Experiências Pessoais rosacruz

projetos holísticos

 

A natureza tem inumeráveis mistérios que o homem deseja descobrir. Estão errados os que acreditam na existência de sociedades possuidoras de segredos determinados que, se quisessem, poderiam comunicar a outras pessoas não evoluídas espiritualmente. O homem que, por meio de favores, pretenda obter o saber verdadeiro, esse que se consegue pelo desenvolvimento espiritual, deixará de esforçar-se no adiantamento e, ao aderir a sociedades secretas na esperança de obtê-lo gratuitamente, sofrerá total desengano.

No verão de 1787, estando eu sentado num banco de jardim, próximo ao castelo de Burgem, Munich, pensava profundamente nesse assunto. Um estrangeiro, de aspecto digno e respeitável, vestido sem a menor pretensão, passeava por uma das áreas do jardim. Dir-se-ia que a tranqüilidade suprema de sua alma se refletia em seus olhos. Tinha cabelos grisalhos e o olhar tão bondoso que, ao passar diante de mim, instintivamente levei a mão ao chapéu. Ele também me saudou amavelmente.

Senti um impulso de segui-lo e falar-lhe, mas não tendo a menor desculpa para fazê-lo, contive-me. O estrangeiro desapareceu, mas no dia seguinte, mais ou menos à mesma hora, tendo eu voltado ao mesmo lugar na esperança de encontrá-lo, ali estava sentado num banco, lendo um livro. Não me atrevendo a interrompê-lo, passeei pelo jardim durante algum tempo. Quando voltei, o estrangeiro já não estava, mas tinha deixado um livro em cima do banco. Apressei-me a tomá-lo, esperando ter oportunidade de devolvê-lo e, com isso, ocasião para conhecer o distinto personagem. Olhei o livro, mas nada pude ler porque estava escrito em caracteres caldaicos. Só na página do título eslava escrita, em latim, uma breve sentença que dizia assim: “Aquele que se levanta cedo em busca da sabedoria, não precisa ir muito longe, encontra-a sentada defronte da sua porta”.

Os caracteres do livro eram muito formosos, de um vermelho muito brilhante, a encadernação de um azul magnífico, com fechos de ouro. O papel finíssimo, branco parecia emitir todas as cores do arco íris, à maneira de nácar. Uma fragrância esquisita penetrava as folhas daquele livro.

Durante três dias consecutivos, às doze fui àquele lugar, na esperança, em vão de encontrar o estrangeiro. Por fim, descrevendo o cavalheiro a um dos guardas, soube que era visto com freqüência, às quatro da manhã, passeando à beira do Isar, perto de lima pequena cascata, num sítio chamado “O Praler”. Indo ali, no dia seguinte, fiquei surpreendido ao vê-lo a ler outro livro parecido com o que eu encontrara.

Acerquei-me para devolver-lhe o livro, explicando como tinha chegado às minhas mãos, mas ele pediu que o aceitasse e o considerasse como presente de um amigo desconhecido. Ao retorquir que não podia ler o seu conteúdo, excetuando os dizeres da primeira página, respondeu que tudo quanto dizia o livro se referia ao que aquela sentença expressava. Pedi-lhe que me explicasse e o estrangeiro, ao longo do passeio que, por algum tempo, demos pela margem do rio, contou-me muitas coisas importantes sobre as leis da natureza. Tinha viajado muito e possuía um verdadeiro tesouro de experiências. Ao nascer do sol disse: “Vou mostrar-lhe algo curioso” e sacou do bolso um pequeno frasco deitando na água algumas gotas do seu conteúdo. Imediatamente as águas do rio começaram a brilhar com todas as cores do arco-íris, até uma distância de mais de trinta pés da margem. Alguns trabalhadores das imediações aproximaram-se para contemplar o fenômeno. A um deles, que estava enfermo, padecendo de reumatismo, o estrangeiro deu algum dinheiro e certos conselhos, assegurando-lhe que, se os seguisse, em três dias estaria bom. O operário agradeceu mas o estrangeiro respondeu-lhe: “Não me agradeça mas sim ao poder onipotente do bem”.

Ao entrarmos na cidade, convidou-me para um novo encontro, no dia seguinte, mas sem declinar o nome nem o lugar de sua residência. Encontrei-o no dia seguinte e dele soube coisas de tal natureza que ultrapassaram tudo quanto podia imaginar acerca dos mistérios da Natureza. Todas as vezes que me falava das grandezas da criação parecia estar possuído de um fogo sobrenatural.

Senti-me confuso e deprimido ante tão superior sabedoria e maravilhava-me ao pensar em como podia ter adquirido esses conhecimentos. O estrangeiro, lendo meus pensamentos, disse: “Vejo que ainda não vos decidistes a respeito da espécie de ser humano em que qualificar-me, mas asseguro-vos que não pertenço a nenhuma sociedade secreta, embora conheça os segredos de todas as sociedades semelhantes. Amanhã vos darei mais explicações, agora tenho várias coisas que fazer.

— Tendes negócios, perguntei, desempenhais algum cargo público?

— Querido amigo, respondeu-me o estrangeiro, quem é bom encontra sempre em que ocupar-se e fazer o bem é o emprego mais alto que o homem pode desempenhar.

Dito isto, partiu e não o vi mais durante quatro dias. No quinto chamou-me pelo nome às quatro da manhã, pela janela do meu quarto e convidou-me para um passeio. Levantei-me, vesti-me e saímos. Contou-me, então, algumas coisas sobre a sua vida passada e, entre elas, que, por volta dos 25 anos, travara conhecimento com um estrangeiro que lhe ensinou muitas coisas e lhe ofereceu um manuscrito que continha ensinos notáveis. Mostrou-me o manuscrito e lêmo-lo juntos.

Eis aqui alguns extratos do mesmo:

“Novas ruínas descobertas do Templo de Salomão – Assim como a imagem de um objeto pode ser vista na água, do mesmo modo os corações dos homens podem ser vistos pelos sábios. Deus te bendiz, filho meu, e te permite publicar o que digo para que, assim, aos homens sejas benéfico. Filius Vitis (Filho da Vida), um dos Irmãos mostrou-me o caminho para os mistérios da natureza, mas durante largo tempo absorvi-me nas ilusões que flutuam nas margens desse caminho. Finalmente, convenci-me da inutilidade de semelhantes ilusões e abri meu coração de novo aos cálidos raios do amor divino, do grande sol espiritual.”

“Então, reconheci a verdade: que a posse da sabedoria divina tem mais valor do que a posse de tudo mais; que o saber humano nada vale e o próprio homem nada é se não se converte em instrumento para a sabedoria divina. Esta sabedoria, desconhecida para o sábio do mundo, é conhecida por algumas pessoas. Oceanos separam o país dos sábios daquele onde moram os néscios. Tal país não será descoberto enquanto os homens não acostumarem os olhos à radiação da luz divina. Ali, no Templo da Sabedoria, há uma inscrição que diz: Este templo é sagrado pela contemplação das divinas manifestações na natureza.”

“Sem verdade não há nenhuma sabedoria, nem existe verdade sem bondade. A bondade raramente se encontra no mundo. Por isso, freqüentemente, as verdades e a sabedoria do mundo não são mais do que loucuras.”

“Estamos livres de preocupações e, com os braços abertos, recebemos os que vêm até nós trazendo o selo da divindade. A ninguém perguntamos se é judeu ou pagão. Tudo quanto exigimos é que se mantenha fiel a sua humanidade. O amor é o traço de união entre nós e por ele trabalhamos em prol da humanidade. Conhecemo-nos uns aos outros pelas obras e quem possui mais elevada sabedoria é o maior entre nós. Nenhum homem pode receber mais do que merece. O amor divino e a ciência são-lhe dados proporcionalmente à sua capacidade para amar e para saber.”

“A fraternidade dos sábios é eterna e absoluta. O sol da verdade eterna ilumina o seu templo. O cristal é aquecido pelo sol e esfria-se quando afastado da luz: do mesmo modo, quando a mente do homem é penetrada pelo divino amor obtém sabedoria, porém, se se afasta da verdade, a sabedoria se extingue. As sociedades secretas e sectárias perderam a verdade e delas a sabedoria desapareceu. Amam aos que servem seus particulares interesses e empregam fórmulas e símbolos de que não compreendem a significação. De filhos que eram da luz, converteram-se em filhos das trevas. O Templo de Salomão construído por seus antepassados foi destruído, não existe dele pedra sobre pedra. A maior confusão reina em suas doutrinas. As colunas do Templo ruíram e, no lugar do santuário, rastejam agora serpentes venenosas. Se desejas saber a verdade ou não do que digo, empunha o facho da razão e entra nas trevas. Contempla o trabalho das sociedades sectárias realizado no passado e no presente e só verás egoísmo, superstição, crueldade e assassínio.”

“O número dos seres humanos que vive sumido nas trevas é de milhões, mas o número dos sábios é pequeno. Vivem em diferentes partes do mundo, a grande distância uns dos outros mas estão inseparavelmente unidos em espírito. Falam diversas línguas, mas todos se compreendem porque a língua dos sábios é espiritual. Opõem-se às trevas e ninguém mal intencionado pode aproximar-se da luz porque suas próprias trevas o destroem. Os homens os desconhecem. Dia virá que, movidos como por um impulso do dedo de Deus, num momento destruirão a obra secular dos malvados. Não busques a luz nas trevas nem a sabedoria nos corações dos malvados. Se te aproximares da verdadeira luz conhecê-la-ás e iluminará a tua alma.”

Estes são alguns extratos do manuscrito. Continha muitas notícias sobre os Irmãos da Cruz e da Rosa de Ouro. Não me é permitido falar de tudo quanto nele aprendi; em resumo, depreende-se que os verdadeiros Rosacruzes formam uma sociedade espiritual que nada tem a ver com as sociedades secretas do mundo. Não constituem uma sociedade, no sentido literal da palavra, porque não têm estatutos, nem regras, nem cerimônias, nem cargos, nem reuniões, nem nada do que estrutura as sociedades secretas. É certo grau de sabedoria que converte um homem em Rosacruz.

Porque é um Iniciado compreende praticamente o mistério da Cruz e da Rosa, a lei da evolução da Vida. Seu conhecimento prático transcende toda teoria e conhecimento intelectual. É inútil meditar sobre questões místicas que estão além do nosso horizonte mental. É inútil tentar penetrar nos mistérios espirituais antes de nos espiritualizarmos. O conhecimento prático supõe prática e só pode ser adquirido pela prática. Para obter poder espiritual é necessário praticar as virtudes espirituais da Fé, da Esperança e da Caridade. A única maneira de chegar a sábio é cumprir, durante a vida, seu dever. Amar a Deus em toda a humanidade e cumprir seu dever, eis a suprema sabedoria humana, emanada da Sabedoria Divina.

Na medida em que aumenta o amor e a sabedoria, aumenta o poder espiritual que eleva o coração e alarga o horizonte mental. Lenta e quase imperceptivelmente, abrem-se os sentidos internos, adquire-se maior capacidade receptiva e cada passo para o alto dilata o campo de visão. Dignas de lástima são as sociedades e as seitas que tentam obter o conhecimento das verdades espirituais por meio da especulação filosófica, sem a prática da verdade. Inúteis são as cerimônias, meras exterioridades, se não se compreender sua significação oculta. Uma cerimônia nada vale, é mera ilusão e impudor se não expressar um íntimo processo da alma. O símbolo, pelo contrário, é facilmente compreendido quando a íntima vivência é real. A incompreensão do significado dos símbolos e as conseqüentes disputas e diferenças de opiniões demonstram que as diversas seitas perderam o poder interno e possuem unicamente a forma morta.

A religião das seitas e sociedades secretas funda-se no amor e na admiração egoístas do eu pessoal. É certo que algumas pessoas generosas e desprendidas aí se encontram, mas a maioria espera obter benefícios, roga por sua salvação e age bem com mira cm recompensas. Por isso, vemos o cristianismo dividido em centenas de sociedades, seitas e religiões diferentes, muitas detestando-se e procurando prejudicar-se umas às outras. Vemos o clero de todos os países ansioso de poder político e de servir os interesses da sua igreja. Perdeu de vista o Deus Universal da humanidade e colocou em Seu lugar o ídolo do eu pessoal. Pretende possuir poderes divinos e emprega sua influência na obtenção de benefícios materiais para a sua igreja. E, assim, o divino princípio de Verdade é prostituído todos os dias e todas as horas nas igrejas, convertidas em mercados. O templo da alma está ocupado por mercadores, o Espírito de Cristo está ausente.

Cristo, a Luz Universal do Logos Manifestado, a Vida e a Verdade, está em toda a parte, não pode ser encerrado numa igreja nem numa sociedade secreta. Sua igreja é o Universo e seu altar o coração de cada ser humano que recebe a sua luz.

O verdadeiro discípulo de Cristo não sabe o que é desejo egoísta. Não se preocupa com o bem estar de outra igreja que não seja aquela, suficientemente ampla, que possa conter a humanidade inteira, não lhe importando as diferentes opiniões. Nem se preocupa com a salvação pessoal e muito menos espera obtê-la à custa de outrem. Sentindo o amor imortal, sabe que ele próprio é imortal, reconhecendo que na consciência de Deus mergulham as raízes do seu Ego individual. O verdadeiro Filho da Luz harmoniza a vontade, o pensamento e o desejo com o Espírito Universal. Pôr o Ego receptivo à divina Luz, executar a sua Vontade e, deste modo, converter-se em instrumento do poder de Deus manifestado sobre a Terra, eis o único meio de adquirir a ciência espiritual e de tornar-se um Irmão da Cruz e da Rosa de Ouro.

(Cartas Rosacruzes)

 

 

(HUGO LAPA)

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Tradição Primordial e Rosacruz

planeta

 

A Tradição Primordial não é um ramo do conhecimento, nem um segmento, nem uma divisão, tampouco uma doutrina. A Tradição Primordial compreende todos os ramos/divisões/segmentos da Sabedoria Universal planetária num mesmo corpo de conhecimento e numa mesma sabedoria coletiva. A Tradição Primordial é a expressão do conhecimento da Grande Fraternidade Branca e da Ordem de Melquisedec na Terra. A Fraternidade Branca cria suas escolas ou Ordens no plano físico para a divulgação e o treinamento de discípulos para que estes alcancem a Gnosis (Conhecimento Supremo), para que estes possam atingir a iluminação cósmica e imprimir uma transformação na consciência planetária.

A Tradição Primordial é algo bem abrangente, que integra as Ordens Tradicionais de mistérios, a sabedoria arcana, a influência positiva nas religiões, a influência na cultura de todos os povos, a criação de mitos que são alegorias de grandes verdades, os textos sagrados de diferentes religiões, etc. Todas estas são linguagens diferentes para expressar princípios e leis Universais. A Tradição Primordial se serve de muitos instrumentos para influenciar a consciência de pessoas em diferentes graus evolutivos ao longo das Eras.

Alguns membros de fraternidades e confrarias místicas e esotéricas caem em erro na tentativa de pesquisar a origem histórica de uma organização dando excessivo valor aos documentos e evidências históricas com o objetivo de comprovar a origem, e assim, demonstrar a autenticidade de uma tradição. Para exemplificar, alguns membros da Ordem Rosacruz, AMORC tem certa dúvida sobre a origem dos ensinamentos, se eles são egípicios (época de Tutmoses III), alemães (1416)  ou americanos (teriam surgido com Spencer Lewis nos Estados Unidos em 1905). Mesmo que a origem dos ensinamentos da amorc seja o egito, isso não é garantia deles serem verdadeiros ou eficazes. Mesmo que a origem dos ensinamentos da amorc seja a idade média, isso não é garantia de serem verdadeiros e eficazes. Se a origem dos ensinamentos for a Cabala Hebraica, isso não é garantia de eficácia e verdade. A pesquisa histórica que comprovasse a origem egípicia dos ensinamentos não os faria mais autênticos, mas apenas iria revelar que eles vieram do egito.

Perder tempo com a tentativa de comprovação da origem dos ensinamentos é o mesmo que tentar perceber o gosto de um alimento através do conhecimento de um cozinheiro.

Não é melhor experimentar a comida e perceber, através do nosso próprio gosto, direta e intimamente, a verdade sobre o gosto, do que ficar percorrendo um caminho muito mais longo em busca de uma origem que, em si mesma, nada comprova sobre a verdade e a eficiencia dos ensinamentos?

Ao invés de enxergar essa questão por uma perspectiva dual, pela polaridade “Ou tem respaldo histórico ou não tem”, vamos aprofundar dentro da nossa consciência do que seja uma tradição. Os buscadores da luz algumas vezes confudem as coisas. Muitos pensam que a tradição é algo que está no passado, veio dele e é fundamentada por ele.

Porém, a origem da tradição não é o passado, mas o presente. A origem da tradição não está nos rastros históricos, nas pegadas do caminho, mas na essência encontrada viva e dinâmica no momento presente, no eterno agora. A Tradição não está dentro do tempo. A Tradição não é composta por séculos ou milênios. A Tradição autêntica está além do tempo.

A Tradição temporal nada mais é do que a manifestação da sabedoria dentro do tempo. A história é o conhecimento de como a tradição foi posta dentro de uma formato, de um molde captado pelos nossos sentidos, sendo inteligível. Mas a Tradição Rosacruz e outras Tradições iniciáticas da humanidade não se resumem a isso.

A sabedoria transcendente não tem base histórica e a História também não tem como fundamentar o transcendente. Quando tentamos explicar o transcendente através da História caimos no erro. Quando tentamos ignorar certos conhecimentos históricos em prol de uma tradição revelada, também podemos cair em erro.

Neste caso, o erro seria procurar fundamentar uma pela outra. Tentar tomar por base a história para explicar tudo sobre uma organização iniciática ou, por outro lado, tentar dissimular ou desvalorizar a base histórica com fundamentos numa tradição sem respaldo histórico.

Porém, sabemos que as Ordens Iniciáticas sempre procuraram se enconder na História. Isso teve diversos motivos e seria inútil procurar nos rastros históricos o elo sagrado de uma tradição. O estudo histórico, pela imprecisão dos seus dados, dentro de qualquer análise de qualquer temática histórica, não é completa em si mesma, pois a história é o estudo de algo que já foi e não é mais. O estudo histórico é, muitas vezes, evidências que nos conduzem a opção de análise dentro do mais provável, mas isso não significa que esse possível seja real e muito menos comprovado.

O que precisamos entender é que as Ordens Iniciáticas não são a-históricas, ou seja, não devem a priori ignorar o valor da pesquisa histórica. Porém, é um erro muito grande a tentativa de comprovação da autenticidade de uma tradição através dessa mesma pesquisa histórica.

Como disse, a tradição nao é temporal. Ela está além do tempo, pois seus princípios podem ser encontrados em várias épocas e culturas e conservar seu carater de universalidade, com uma mudança apenas em suas formas de apresentação.

Assim, o real que falamos não é o real histórico, mas o real da experiência dos principios ensinados por uma tradição que se manifestou ao longo da História. Mas essa manifestação histórica não é o próprio fundamento das Ordens Iniciáticas, e seu a sua essência interior e esotérica, posta em movimento pela experiencia direta das leis e ensinamentos.

Podemos colocar a Tradição dentro de três níveis distintos, porém inter-relacionados.

1 – A Tradição como manifestação histórica da atividades dos iniciados dentro dos eventos conhecidos dos pesquisadores. Essa forma de manifestação da Tradição é identificada através de documentos, de relatos, de escritos, obras, pinturas, parábolas, analogias etc. Aqui residem as evidências históricas de um patrimônio de sabedoria de uma Tradição. Porém, se formos pensar bem, os documentos históricos não comprovam o que é uma Tradição no seu carater mais profundo, mais esotérico. Estes apenas nos dão indicações ou sinais indiretos, exotéricos, aparentes, do que seria a essência de uma Tradição. Se os documentos históricos pudessem comprovar a origem de uma Tradição e a sua essência, sua verdade ou autenticidade, qualquer historiador teria a clara noção, a mais perfeita idéia do que de fato é uma Tradição. E isto todos sabemos que não acontece. Assim, essa forma de conhecimento da Tradição é a via mais indireta para a penetração no cerne de uma Tradição e o desvedar de sua origem.

2 – A Tradição como aquisição de sabedoria dentro de uma linhagem iniciática. Essa é uma forma mais profunda de conhecer uma Tradição. Cada iniciado guarda, em certa medida, os conhecimentos, os símbolos e a essência de uma Tradição, mas a via não é mais exterior, mas sim interior. O iniciação “morre” para seu aspecto externo, sua personalidade, para que a Tradição e sua essência possam “nascer” ou “despertar” dentro dele. Porém, cada iniciado ainda é humano em algum nível e não pode ainda participar da totalidade de uma Tradição, pois para isso sua renúncia a si mesmo deve ser completa.

Assim, a Tradição teria uma “origem histórica” e uma “origem interior”, que é o momento da iniciação, o momento em que a Tradição nasce dentro do iniciado.

3 – A Tradição em sua essência mais pura e perfeita. Esse nível, se é que podemos chamar de um nível, é o mais inalcançavel, inacessível ao puro raciocínio, a análise lógica histórica e inefável em sua mais profunda definição. Aqui, a Tradição nunca nasceu e nunca vai morrer. Quando falamos da origem histórica, estamos abordando a “manifestação” de uma Tradição dentro do tempo, sua expressão no plano onde existe inicio e fim, onde tudo começa e depois acaba, onde nada é contínuo, tudo é passível de transformação. A Tradição não reside nesses níveis inferiores, mas ela está além do tempo. Assim, sua verdadeira origem é o cosmico, que só pode ser acessível a consciência mais elevada, além do pensamento temporal e espacial.

Há uma Fraternidade Rosacruz, eterna e invisível, que já se manifestou no plano físico em vários momentos históricos, mas que nãos e resume a nenhum deles, pois a sua essência transcende quaisquer manifestações objetivas.

É nesses níveis mais elevados que vamos encontrar a Tradição, não adianta ficar tentando procura-la em documentos históricos, pois o que está ali são apenas formas vazias.

Nos ensinamentos da Ordem Rosacruz, AMORC, qualquer pessoa pode praticar os experimentados e atingir a compreensão precisa do que é a Tradição. Essa é uma pesquisa psíquica, e não uma pesquisa material.


(HUGO LAPA)

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Livro do Mundo ou Liber Mundi

O Livro do Mundo ou Liber Mundi é uma expressão frequentemente usada pelos rosacruzes antigos e atuais. Esse termo foi difundido no clássico Fama Fraternitatis, um dos três manifestos rosacruzes difundidos na alemanha no inicio do século XV.

Na realidade, fala-se do liber mundi como sendo uma obra apenas dos rosacruzes, mas isso não é verdade. Trata-se de um livro universal, que não pertence a nenhuma organização, cultura ou época, embora seu conteúdo revele conhecimentos, símbolos e uma essência dos ensinamentos que são mais comuns no rosacrucianismo.

O Liber Mundi é assim definido por Pierre Riffard “O Livro do Mundo é a natureza física ou a natureza universal, corpo de símbolos, sistema de significantes naturais, fonte de conhecimento sobre o homem, Deus e a vida.”

 

(HUGO LAPA)

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Os Irmãos

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Não perguntes quem são os que escreveram estas cartas, julga-as pelos méritos que apresentam, considera não meramente as palavras, mas o espírito com que foram escritas.

Não nos move nenhum espírito egoísta. E a luz interna que nos instiga a agir, que nos impulsiona a escrever-te. As credenciais são as verdades que possuímos, verdades facilmente reconhecidas por aqueles que põem a verdade acima de tudo. Também a ti as revelaremos, na medida da tua capacidade para receber ou não o que dissermos.

A Sabedoria Divina não clama que a admitam; luz que brilha com eterna tranqüilidade, espera pacientemente o dia em que seja reconhecida e aceita.

Nossa comunidade existiu desde o primeiro dia da criação e continuará existindo até ao último. É a sociedade dos Filhos da Luz. Seus membros conhecem a luz que brilha no interior e no exterior das trevas e a natureza do destino humano. Em sua Escola, o Mestre, a própria Sabedoria Divina, ensina aos que procuram a verdade pela verdade e não por qualquer benefício mundano. Os mistérios explicados nesta Escola reportam-se às coisas que é possível conhecer, relativas a Deus, à Natureza e ao homem. Todos os antigos sábios aprenderam em nossa Escola. Entre seus membros, alguns são habitantes de outros mundos, distintos deste. Esparsos pelo Universo, todavia estão ligados por um só Espírito. Entre eles não há diferença de opiniões. Estudam num só livro e, para todos, o método de estudo é o mesmo. Esta Sociedade é composta de Escolhidos, dos que buscam a luz e podem recebê-la. O que possuí maior receptividade para a luz e o Chefe. O lugar de reunião e intuitivamente conhecido por cada membro e facilmente alcançado por todos, residam onde residirem. Está muito perto, mas tão oculto aos olhos do mundo que ninguém, a não ser um iniciado, pode encontrá-lo. Os que estão maduros podem entrar, mas os que estão verdes esperam.

A Ordem possui três graus: ao primeiro chega-se pelo poder da inspiração divina; ao segundo, pela iluminação interior e, ao terceiro, o mais elevado, pela contemplação e adoração.

Não existem entre nós disputas, nem controvérsias, nem especulações, nem sofismas, nem dúvidas, nem ceticismos. Aquele a quem se apresenta a melhor oportunidade para fazer o bem é o mais feliz. Estamos de posse dos maiores mistérios e, não obstante, não constituímos nenhuma sociedade secreta. Nossos segredos são um livro aberto para quem está disposto e apto. O segredo que mantemos não decorre de pouco desejo de ensinar, mas resulta da fraqueza dos que pedem os ensinamentos. Estes segredos não podem ser comprados por dinheiro nem demonstrados publicamente. Os corações despertados para estes poderes são capazes de receber a sabedoria e o amor fraternos e compreendem-nos. Aquele que despertou o fogo sagrado é feliz e está contente. Percebe a causa das misérias humanas e a necessidade inevitável do mal e dos sofrimentos. Sua visão clara compreende o fundamento de todos os sistemas religiosos, as verdades relativas que contêm e a instabilidade que os caracteriza, por falta, entre os seus membros, do verdadeiro saber.

A humanidade vive mergulhada num mundo de símbolos, incompreendidos pela maioria dos homens. Mas aproxima-se o dia do reconhecimento do espírito vivente que encerram. Então, os sagrados mistérios serão revelados.

Perfeito conhecimento de Deus, perfeito conhecimento do homem, são as luzes que, no templo da verdade, iluminam o santuário da sabedoria. Fundamentalmente, só existe uma religião e uma fraternidade universais. Sob as formas, os sistemas e associações religiosos, jaz, somente, uma parte da verdade. São cascas, revelando verdades relativas do que representam e ocultam, mas necessárias aos que não podem ainda reconhecer a verdade invisível e informe representada pelos símbolos.

Ensinar a compreender, pouco a pouco, que a verdade ali existe, ainda que invisível, é cooperar no despertar da crença, base do desenvolvimento da fé e do conhecimento espirituais. Mas, se as formas externas de um sentimento religioso representam verdades ocultas não integradas no sistema, tais símbolos só representam coisas ridículas. Existem tantos erros nas formas como nas teorias porque, sendo infinita a verdade absoluta, não pode circunscrever-se a uma forma ou teoria limitadas. Os homens, equivocadamente, tomaram a forma pelo espírito, o símbolo pela verdade e, deste equívoco, nasceram infinitos erros. Denunciá-los ou estabelecer ardentes controvérsias em nada os corrige; assim também, as atitudes hostis não corrigirão os que vivem no erro. As trevas não podem ser dissipadas ou combatidas com armas. A luz é que as afasta. Onde entra o saber a ignorância desaparece.

No presente século que começa aparecerá a luz. Coisas ocultas durante centúrias serão conhecidas, muitos véus serão levantados. Será mostrada a verdade que está para além da forma. A humanidade, como um todo, mais se aproximará de Deus.

Não podemos dizer-te, agora, por que isto virá neste século. Limitamo-nos a dizer que cada coisa tem seu tempo e seu lugar e que todas as coisas no Universo estão reguladas por uma lei de ordem e harmonia divinas. Primeiro veio o símbolo que ocultava a verdade; depois, a explicação do símbolo e, finalmente, a própria verdade será recebida e reconhecida. A árvore brota da semente, o símbolo, a síntese do seu inteiro caráter.

É nosso dever ajudar ao nascimento da verdade e abrir as cascas que cobrem a verdade, reavivando, por toda a parte, os hieróglifos mortos. Não são os poderes pessoais que nos permitem fazer isto, mas o poder da luz que, como seus instrumentos, opera em nós. Não pertencemos a nenhuma seita, não lemos ambições a satisfazer, não desejamos ser conhecidos, nem somos daqueles a quem desgosta o presente estado de coisas do mundo e desejariam governar para impor suas opiniões à humanidade. Não existe ninguém, partidarismo algum, que influa sobre nós, nem esperamos prêmio pessoal pelo nosso trabalho.

Possuímos uma Luz que nos abre os mistérios mais profundos da natureza e um Fogo que nos alimenta e permite agir em tudo que na natureza existe. Temos as chaves de todos os segredos e conhecemos os elos que unem o planeta a todos os mundos. Temos a ciência universal, que abraça todo o universo, cuja história começou com o primeiro dia da criação.

Possuímos todos os livros de sabedoria antiga. A natureza está sujeita à nossa vontade porque somos unos com o Espírito universal, a potência motriz do universo e a origem eterna da vida. Não precisamos ser informados nem pelos homens nem pelos livros que escrevem porque conhecemos tudo que existe, lemo-lo nesse livro isento de erros, a natureza. Tudo se ensina em nossa Escola, é nossa Mestra a Luz que produziu todas as coisas.

Podemos falar-te das coisas mais maravilhosas, tão longe do alcance do filósofo mais erudito do nosso tempo como o sol da terra. Todavia, estão para nós tão perto como a Luz está próxima do Espírito donde emana.

Não temos a intenção de excitar a tua curiosidade. Desejamos, sim, criar em ti a sede da sabedoria e a fome do amor fraterno, para que possas abrir teus olhos à luz e contemplar a verdade divina. Não nos cumpre aproximar-nos de ti para dar-te entendimento: o poder da própria verdade é que entra no coração, é o esposo divino da alma que chama à porta. E quantas almas rejeitam este esposo, submersas nas ilusões da existência externa!

Desejas ser um membro da nossa Fraternidade? Desejas conhecer os Irmãos? Entra em teu coração, aprende a conhecer a divindade que se manifesta em tua alma.

Busca em ti o que é perfeito, imortal, permanente. Quando encontrares, entrarás em nossa confraria e conhecer-nos-ás. Tens que expulsar todas as impurezas antes de entrar em nosso círculo, imune a toda imperfeição. Todos os elementos mortais do teu íntimo deverão ser consumidos pelo fogo do amor divino. Deves ser batizado com a água da verdade e vestido da substância incorruptível originada dos pensamentos. O sensório interno deverá abrir-se à percepção das verdades espirituais e a mente aos clarões da sabedoria divina. Por estes meios, poderão desenvolver-se em tua alma elevados poderes. Com eles estarás apto a vencer o mal. Todo o teu ser será restaurado e transformado num ser luminoso, teu corpo servirá de mansão ao espírito divino.

Perguntas quais são as nossas doutrinas? Não tomamos a defesa de nenhuma. Fosse qual fosse a que te apresentássemos seria mera opinião duvidosa enquanto não te conheceres a ti mesmo. Interroga teu espírito divino, abre tua alma, teus sentidos, à compreensão do que te diz e certamente responderá às tuas perguntas.

Tudo que podemos fazer por ti é oferecer-te algumas teorias. Considera-as, examina-as e não creias nelas só porque procedem de nós. Devem servir-te de balizas e sinais durante tuas excursões pelo labirinto do exame próprio.

Uma das proposições que submetemos à tua ponderação é que a humanidade, como um todo, não será feliz enquanto não reviver no espírito da sabedoria divina e do amor fraternal. Quando isto for realidade, os regentes do mundo terão coroas de razão pura, os cetros serão amor e, ungidos do poder puro, poderão libertar os povos da superstição e das trevas. Então, com tal aperfeiçoamento, melhorarão as condições da humanidade, desaparecerão a pobreza, o crime e as enfermidades.

Outra sentença te apresentamos: os homens seriam mais espirituais e mais inteligentes se a densidade das partículas materiais dos seus corpos não impedissem a ação do próprio espírito. Quanto mais grosseiramente vivem, quanto mais se deixam dominar pela sensualidade animal e semi-animal, tanto menos podem alçar o pensamento às regiões superiores do mundo ideal e perceber as eternas realidades do espírito. Repara nas formas humanas que transitam pelas ruas, repletas de alimentos carnívoros, cheias de impurezas, com o selo da intemperança e da sensualidade impresso nos rostos — e pergunta a ti próprio se estarão em condições de nelas manifestar-se a sabedoria divina.

Também te dizemos: espírito é substância, é realidade; seus atributos são indestrutibilidade, impenetrabilidade e duração. Matéria é um agregado que produz a ilusão da forma, é divisível, penetrável, corruptível e está sujeita a mudanças contínuas.

O reino espiritual é um mundo indestrutível que existe agora e sempre. Cristo, o Logos, está no centro e seus habitantes são poderes conscientes e inteligentes.

O mundo físico é um mundo de ilusões, não pode conter a verdade absoluta. As causas que explicam o mundo externo são relativas e fenomênicas. Este mundo é, por assim dizer, uma pintura sombria, comparado ao mundo interno e real onde brilha a luz do espírito vivente que opera no interior e no exterior da matéria.

A inteligência inferior do homem toma as idéias do reino mutável do sensível e. por isso, está sujeita à maior versatilidade. Mas a inteligência espiritual, ou intuição, um atributo do espírito é imutável e divina.

Quanto mais etéreas, refinadas, sutis, forem as partículas constituintes do organismo humano, mais facilmente serão penetradas pela luz da inteligência e da sabedoria espirituais.

Um sistema racional de educação deverá fundar-se no conhecimento da constituição física, psíquica e espiritual do homem. Será possível quando a constituição do homem for conhecida completamente e, acima de tudo, a sua essência, o espírito, não o seu espectro, a matéria. Os aspectos da constituição humana podem ser estudados por métodos externos mas o conhecimento do seu organismo invisível só pode ser obtido pela introspecção, pelo estudo de si mesmo.

O conselho mais importante que temos a dar-te é, portanto,

CONHECE TEU PRÓPRIO EU.

As proposições anteriores são suficientes. Deves meditá-las, examiná-las à luz do espírito, até que recebas mais ensinamentos.

 

(HUGO LAPA)

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Os Adeptos

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Em tua resposta à minha última carta, manifestaste a opinião de que o expoente de espiritualidade exigido pela nossa filosofia e que combina o intelecto com a moral, é demasiadamente elevado para que o homem possa alcançá-lo. E duvidas que alguém alguma vez o alcançasse.

Permite dizer que muitos daqueles a quem a igreja cristã chama santos e muitos outros habitualmente conhecidos por pagãos, obtiveram aquele estado, alcançaram poderes espirituais e realizaram coisas extraordinárias a que é costume chamar milagres.

Se examinares a vida dos santos, acharás muitas coisas grotescas, fabulosas e falsas. Os que só conhecem as lendas, conhecem pouco ou nada das leis misteriosas da natureza. Relatam fenômenos autênticos ou apócrifos mas, não podendo explicá-los, atribuem-lhes causas de sua própria invenção. Em todos esses escombros encontrarás uma parte de verdade, o que demonstra que a inteligência de pessoas sem ilustração, pode ser iluminada pela Divina Sabedoria, se tais pessoas vivem santamente. Verás que, muitas vezes, frades e freiras pobres e ignorantes, segundo o mundo, sem nenhuma instrução, alcançaram tal sabedoria que foram consultados por papas e reis; e verás que, muitos deles, atingiram o poder de abandonar os corpos físicos para, em corpos sutis, visitar lugares distantes e aparecer em forma material em pontos remotos.

As ocorrências desta espécie foram tão numerosas que deixaram de parecer extraordinárias, e nem será necessário descreve-las porque são todas já bastante conhecidas. Na vida de Santa Catarina de Sena, na de São Francisco Xavier e nas de muitos outros santos, encontrarás a descrição de semelhantes incidentes. A história profana também abunda em narrações referentes a homens e mulheres extraordinários. Limito-me a recordar-te a história de Joana d’Arc, que possuiu dons espirituais e a de Jacob Boheme, sapateiro inculto iluminado pela Sabedoria Divina.

Nada seria mais absurdo que disputar sobre semelhantes coisas com um cético ou um materialista. Equivaleria a discutir sobre a existência da luz com um cego de nascença. Nenhum tribunal de cegos pode falar sobre a existência ou não existência da luz e, não obstante, ela existiu e existe. Podemos dar aos cegos alguma idéia sobre a luz mas não podemos provar-lhe cientificamente enquanto permanecerem cegos à razão e à lógica.

A “civilização moderna” a tal ponto tem degradado os conceitos sobre os valores que, para muita gente, todos os afãs se concentram no dinheiro como meio de satisfazer seus apetites, comodidades, afeições ou luxos. Tais pessoas não compreendem que se possa praticar algum ato fora da mira de enriquecer, comer, beber, dormir e gozar de lodo o conforto da vida.

Não obstante, tais pessoas não são felizes, vivem inquietas e ansiosas, correndo atrás de ilusões que se desfazem ao tocá-las, ou que geram desejos mais violentos para outras ilusões.

Felizmente, há muitas pessoas em quem a centelha divina de espiritualidade não foi abafada pelo materialismo; algumas, até, converteram esta centelha em chama pelo sopro do Espírito Santo, sopro que ilumina as inteligências e de tal modo penetra os corpos físicos que, mesmo observadores superficiais se apercebem do caráter extraordinário dessas pessoas. Indivíduos desta natureza habitam em diversas partes do mundo e constituem uma Fraternidade pouco conhecida.

Nem é desejável que seja divulgada porque excitaria a inveja e a cólera dos ignorantes e dos malvados, pondo em atividade uma força hostil a si própria.

Todavia, como desejas conhecer a verdade não por mera curiosidade mas pelo desejo de seguir o caminho, foi-me permitido dar-te as seguintes notícias ( ):

Os Irmãos de quem falamos vivem desconhecidos para o mundo. A história nada sabe deles, contudo, são os maiores da humanidade. Quando se converterem em pó os monumentos erigidos em honra dos conquistadores do mundo, e deixarem de existir os reinos e tronos, estes escolhidos ainda viverão. Tempo chegará em que os homens abandonarão as ilusões e começarão a estimar o que é digno de apreço; então, os Irmãos serão conhecidos e apreciada a sua sabedoria.

Os nomes dos grandes da terra estão escritos no pó mas os nomes destes Filhos da Luz estão no Templo da eternidade. Farei que conheças estes Irmãos; poderás converter-te num deles. Iniciados nos mistérios da religião, não pertencem a nenhuma sociedade secreta, como essas que profanam as coisas sagradas com cerimônias e pompas e cujos membros presumem de iniciados. Não, somente o Espírito de Deus pode iniciar o homem na Sabedoria Divina e iluminar sua inteligência. Só o Hierofante pode guiar o candidato para o altar onde arde o fogo divino, mas é o candidato que, por si, deve chegar ao aliar. Quem deseja ser iniciado deve fazer-se digno de obter dons espirituais, deve beber na Fonte que a todos se oferece mas que não sedenta aqueles que a si mesmo se excluem.

Enquanto ateus, materialistas e céticos da moderna civilização falseiam a palavra filosofia e, aparentando celestial sabedoria, pontificam com as lucubrações dos próprios cérebros, os Irmãos, tranqüilamente, iluminados por uma luz mais alta, constroem, para o Eterno Espírito, um Templo que permanecerá, mesmo depois do desaparecimento dos mundos. Seu labor consiste no cultivo dos poderes da alma. O torvelinho do mundo e suas ilusões não os afetam; no livro misterioso da natureza lêem as letras vivas de Deus. Reconhecem e gozam das harmonias divinas do universo. Enquanto os sábios do mundo reduzem a níveis intelectuais e morais o que é sagrado e exaltado, estes Irmãos elevam-se ao plano da luz divina e nele encontram tudo quanto, na natureza, é bom, verdadeiro e justo.

Não se limitam a crer, conhecem a Verdade por contemplação espiritual ou Fé viva. Suas obras estão em harmonia com sua Fé: fazem o bem por amor do bem e sabem que é o bem. Sabem que um homem não pode converter-se em verdadeiro cristão só por abraçar certa crença. A conversão num cristão verdadeiro significa transformar-se num Cristo, elevar-se acima da personalidade e consubstanciar, no seio do divino Ego, tudo que existe nos céus e na terra. É um estado inconcebível por quem nunca o alcançou. Significa uma condição em que o homem é, real e conscientemente, o templo onde reside, com todo seu poder, a Trindade Divina. Só nesta luz ou princípio, a que chamamos Cristo, que outros povos conhecem por outros nomes, podemos encontrar a verdade.

Entra nesta Luz e aprenderás a conhecer os Irmãos que nela vivem.   É o santuário de todos os poderes e meios chamados sobrenaturais e proporciona a energia necessária  para restabelecer a união que, em remotas eras, ligava o homem à Fonte Divina donde procede. Se  os homens  conhecessem  a  dignidade  das próprias almas e as possibilidades dos seus poderes latentes, só o desejo desse conhecimento   os   encheria   de   respeitoso   temor.   Deus é Uno e só existe uma verdade, uma ciência e um caminho para chegar a Ele.  Dá-se a este caminho o nome de Religião; portanto, só existe uma religião, ainda que haja muitas confissões diferentes.

O necessário para conhecer a Deus   está, integralmente, na natureza. As verdades que a religião pode ensinar existiram desde o princípio do mundo e existirão até que o mundo acabe. Em todas as nações deste planeta brilhou sempre a luz, mas as trevas não a compreenderam. Em certas regiões a luz foi muito brilhante, noutras, menos: brilhou sempre proporcionalmente à capacidade receptiva do povo e à pureza de sua vontade. Todas as vezes que encontrou grande acolhimento, apareceu com dilatado resplendor e os homens capacitados perceberam-na mais claramente. A verdade é universal, não pode ser monopolizada por ninguém.

Os mistérios mais augustos da religião, tais como a Trindade, a Queda da Mônada humana, sua Redenção pelo amor, etc., encontram-se tanto nos sistemas antigos de religião como nos modernos. Conhecê-los é conhecer o Universo, é conhecer a Ciência Universal, ciência infinitamente superior a todas as ciências materiais do mundo. Se é certo que estas examinam algumas particularidades, alguns detalhes da existência, não locam, porém, as grandes verdades universais que são fundamento da existência, até com desprezo tratam semelhantes conhecimentos porque seus olhos estão fechados à luz do espírito.

As coisas externas podem ser examinadas com a luz externa; as especulações intelectuais requerem a luz da inteligência, mas a percepção das verdades espirituais precisa da luz do espírito. Uma luz intelectual, sem a iluminação espiritual, conduzirá os homens ao erro.

Os que desejam conhecer as verdades espirituais devem buscar a luz no seu íntimo e não em qualquer espécie de fórmulas ou cerimônias externas. Quando tiverem encontrado Cristo dentro de si serão cristãos. Era esta a religião prática, a ciência e o saber dos antigos sábios, muito tempo antes de aparecer o Cristianismo. Era também a religião prática dos primitivos cristãos que, como verdadeiros discípulos de Cristo, estavam espiritualmente iluminados.

À medida que o Cristianismo se difundia, as interpretações falsas foram suplantando a verdadeira doutrina e os símbolos sagrados perderam sua real significação. As organizações eclesiásticas inventaram ritos e cerimônias e a fraude e um mórbido misticismo usurparam o trono da religião e da verdade. Os homens destronaram Deus para se assentarem no seu trono. A ciência de tais homens não é sabedoria. Suas experiências não vão alem das sensações corporais. Sua lógica funda-se em argumentos falsos. Jamais conheceram as relações do homem finito com o Espírito Infinito. Arrogam-se poderes divinos que não possuem e induzem os seus semelhantes a buscar neles a luz que só irradia do divino Ego; e, assim, os enganam com esperanças vãs c sugerem falsas seguranças que conduzem à perdição.

Eis aí as conseqüências do poder material acumulado pelas modernas igrejas. Que demonstra a história? Que o aumento do poder material de uma igreja diminui o seu poder espiritual. Ela não pode dizer: “Não possuo ouro nem prata”, nem ao enfermo: “levanta-te e caminha”!

Se não for infundida nova vida nos antigos sistemas religiosos, sua decadência é certa. Sua ineficácia está patente na difusão universal do materialismo, do ceticismo e da libertinagem. Não pode reavivar-se a religião, aumentando o poder e a autoridade material do clero.

O poder central que dá vida e movimento a todas as coisas é o Amor. Uma religião só pode ser forte e verdadeira quando vivificada pelo Amor. A religião que se fundasse no amor universal conteria os elementos de uma religião universal.

Se o princípio de amor não for praticamente reconhecido pela igreja, não haverá nela verdadeiros cristãos nem adeptos, o os poderes espirituais que o clero pretende possuir só existirão em sua imaginação. Cesse o clero das distintas denominações de excitar o espírito de intolerância, desista de convidar o povo à guerra e ao sangue, às disputas e questões. Reconheça que todos os homens, de qualquer nacionalidade, professem a religião que professarem, têm uma origem comum e os aguarda o mesmo destino, todos são fundamentalmente idênticos, diferindo uns dos outros apenas em condições externas. Quando as igrejas pensarem mais no interesse da humanidade do que nos seus interesses temporais, então e só então, reconquistarão seus poderes internos e formarão santos e adeptos.

Outra vez obterão dons espirituais; os fatos milagrosos se repetirão e serão mais apropriados do que todas as especulações teológicas para convencer a humanidade de que, além do reino sensível da ilusão material, existe um poder supremo, universal e divino que diviniza os que se identificam com este poder. A verdadeira religião consiste no reconhecimento de Deus, mas Deus só pode ser reconhecido por meio de sua manifestação. Ainda que toda a natureza seja uma manifestação de Deus, o grau mais alto desta manifestação é a divindade no homem. Unir o homem com Deus, fazer todos os homens divinos, eis o objetivo final da religião. Reconhecer a divindade em todos é o meio para atingir aquele fim.

O reconhecimento de Deus significa o reconhecimento do princípio universal de amor divino. Quem reconhece plenamente este princípio abre os sentidos internos e a mente à iluminação da Sabedoria Divina. Quando todos os homens tiverem chegado a este cume, a luz do espírito iluminará o mundo, assim como, agora, o ilumina a luz do sol. Então, o saber substituirá a dúvida, a fé substituirá a crença e o amor universal reinará em vez do amor pessoal. A majestade de Deus Universal e a harmonia de Suas leis serão reconhecidas na natureza e no homem. E nas jóias que adornam o trono do Eterno, jóias que os Adeptos conhecem, resplandecerá a luz do Espírito.

[1]  O que segue foi extraído da carta original escrita por Karl von Eckartshausen, em Munich, cerca do ano de 1792.

(Cartas Rosacruzes)

 

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A Doutrina Secreta

olho que tudo ve

Em seus fundamentos a Doutrina Secreta, fonte dos mais profundos mistérios do Universo, é tão simples que pode ser compreendida por um menino. Por ter esta simplicidade, dela desdenham os que suspiram pela complexidade e pelas ilusões. “Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”, o conhecimento prático desta verdade é tudo que se requer para entrar no templo onde se adquire a sabedoria divina.

Não poderemos conhecer a causa de todo bem se não nos aproximarmos dela; e não poderemos aproximar-nos dela se a não amarmos e se não formos, por amor, atraídos para ela. Não podemos amá-la sem que a sintamos e não podemos senti-la sem que exista em nós.

Para amar o bem precisamos ser bons. Para, sobre todas as coisas, amar o bem, deve o sentimento da verdade, da justiça, da harmonia, sobrepujar e absorver os outros sentimentos. Devemos deixar de viver no âmbito do eu pessoal, que é o mal, e começar a viver no divino da humanidade como num todo. Devemos amar o que é divino, tanto na humanidade como dentro de nós mesmos. Se alcançarmos este estado supremo, de esquecimento do nosso ego intelectual e animal e de união com deus, não haverá na terra ou nos céus, nenhum segredo inacessível.

Conhecer Deus, o que é? É o conhecimento do bem e do mal. Deus é a causa de todo bem e o bem é a origem do mal.O mal é a reação do bem, no mesmo sentido em que as trevas são a reação da luz. O fogo divino de que procede a luz não é causa da obscuridade, mas a luz que irradia do centro flamígero não pode chegar a manifestar-se sem a presença das trevas.Sem a presença da luz as trevas seriam desconhecidas.

Por conseguinte, há dois princípios: o do bem e o do mal, partindo ambos da mesma raiz, destituída de mal. Nesta raiz só existe o inconcebível bem absoluto. O homem é um produto da manifestação do princípio do bem e unicamente no bem pode encontrar a felicidade, visto que a condição necessária de felicidade para cada ser é viver no âmbito a que a sua natureza pertença.

Os que nascem no bem são felizes no bem, os que nascem para o mal nada mais desejam que o mal. Os que nascem na luz buscarão a luz, os que pertencem às trevas buscam as trevas. Sendo o homem .um filho da luz, não será feliz enquanto em sua natureza existir um resquício de trevas. 0 homem não encontrará a paz enquanto albergar no íntimo uma pequena mancha do mal.

A alma do homem é como um jardim onde se lançou um número infinito de sementes. Destas sementes podem surgir belas plantas e plantas disformes. O calor necessário para o seu crescimento vem do fogo que se chama vontade. Se a vontade é boa, desenvolverá plantas belas, se é má, plantas disformes. Logo, a finalidade principal da existência do homem na terra é a purificação da vontade, cultivando-a para que se converta numa potência espiritual. O único meio para purificar a vontade é a ação. Para consegui-lo, as ações têm de ser boas até que o agir bem seja mera questão de hábito. E o hábito se estabelece quando na vontade não haja mais desejo de agir mal.

Que proveito terias em conhecer intelectualmente os mistérios da Trindade e o poder falar brilhantemente sobre os atributos do Logos, se no altar do teu coração não ardesse o fogo do amor divino e, nesse templo. não brilhasse a luz do Cristo? Se tua inteligência for abandonada pelo espírito, o dador da vida, desvanecer-se-á, perecerá, a não ser que a chama do amor espiritual arda em teu co-ração com a.luz da consciência eterna.

Se não estás na posse do amor do bem, mais te vale permanecer sumido na ignorância; assim, pecarás ignorantemente e não serás responsável por teus atos.Mas aqueles que conhecem a verdade e a desprezam por má vontade, sofrerão; cometeram pecado contra a verdade santa e espiritual. O Rosacruz, em cujo coração arde o fogo do amor divino, está iluminado e inspirado por esse fogo e, por causa do mesmo amor, pratica ações nobres. Não necessita de mestre mortal algum que lhe ensine a verdade porque, penetrado do espírito de sabedoria, este é o seu Mestre verdadeiro.

Todas as ciências e artes mundanas são mínimas e pueris ante a excelência desta sabedoria divina. A posse do saber do mundo não confere valor permanente, mas a da sabedoria divina é um valor eterno. Não pode existir sabedoria divina sem o amor divino. A sabedoria divina é a união do saber espiritual com o amor espiritual, de que resulta o poder espiritual. Aquele que não conhece o amor divino não conhece a Deus. Deus é amor fonte e o centro flamígero do amor. Por isso, foi dito que, ainda que penetrássemos todos os mistérios, fizéssemos boas obras mas não possuíssemos o amor divino, nada disso nos aproveitaria. Pelo amor é que se pode conquistar a imortalidade.

Que é o amor? O amor é um poder universal que procede do Centro donde surgiu e se expandiu o Universo. No reino elementar, o amor age à maneira de força cega, chamada força de atração. No reino vegetal, obtém os rudimentos dos instintos que, no reino animal, tem completo desenvolvimento. Finalmente, no reino hominal, converte-se em paixão; esta, ou o impelirá para a fonte divina donde brotou ou, se for pervertida, conduzi-lo-á à destruição. No reino espiritual, o do homem regenerado, o amor se transforma em poder espiritual, consciente e vivo. Para a maior parte dos homens o amor não é mais do que um sentimento. O amor verdadeiramente divino e poderoso é quase desconhecido da humanidade. O sentimento superficial a que chamam amor é um elemento semi-animal, fraco, impotente, e todavia suficiente para guiar ou extraviar os homens. Podemos amar ou deixar de amar uma coisa, mas o amor superficial não penetra senão os extratos superficiais do objeto amado. A posse do amor divino não depende de escolha é um dom do espírito que reside no interior, é um produto da evolução espiritual e só os que a esta chegam podem possuí-lo. Não é possível alguém conhecer este amor se não alcança a consciência divina, mas o que a atinge sabe que é um poder que penetra tudo, brota do centro do coração e, tocando o coração do ente amado, atrai os germes do amor ali contidos. A este amor espiritual chama, se te parece melhor, luz espiritual, pois é tudo isso e muito mais. Todos os poderes espirituais brotam de um centro eterno e ascendem à maneira do vértice duma pirâmide de muitos lados. A este ponto, a este poder, a este centro, a esta luz, a esta vida, a este Todo, chamamos deus, a causa de todo o bem. Esta palavra é um mero vocábulo sem significação para aqueles que o nãoentendem; aliás, nem sequer podem conceber seu significado porque não sentem nemconhecem a Deus em seus corações.

Como poderemos obter este poder espiritual de amor, de boa vontade, de luz e de vida eterna? Não podemos amar uma coisa sem que saibamos que é boa; não podemos conhecer se uma coisa é boa ou má sem senti-la; não podemos senti-la sem que nos aproximemos dela e não podemos aproximar-nos se a não amamos. Assim, giraríamos, eternamente em círculo vicioso, sem nos acercarmos jamais da eterna verdade que, do centro do coração humano lança seus raios e, instintiva e inconscientemente transforma o movimento circular em movimento espiral, se a Luz da Graça não conduzisse os homens para aquele centro, mau grado as próprias inclinações.

Tem sido dito que a inclinação do homem para o mal é mais forte do que para o bem. Indubitavelmente, isto é certo; no estado presente de sua evolução as atividades e tendências animais são muito fortes. Os princípios espirituais mais elevados não se desenvolveram suficientemente para dar-lhe consciência de si. Contudo, se as inclinações animais são mais fortes que seus poderes espirituais, a luz eterna e divina que o atrai para o centro é muito poderosa. Se resiste ao poder do amor divino e prefere dirigir-se ao mal, não deixará, contudo, de ser atraído, contínua e inconscientemente, para o centro do amor. Portanto, ainda que, em certo grau, seja vítima indefesa de poderes invisíveis, na medida em que faz uso de sua razão é, de certa maneira, um agente livre, livre relativamente, visto que só poderá ser completamente livre quando sua razão for perfeita. A razão tornar-se-á perfeita quando vibrar uníssona e harmoniosamente com a razão divina e universal. Portanto, o homem só pode ser livre se obedecer à lei.

Só pode existir uma Razão Suprema, uma Lei Suprema, uma Sabedoria Suprema, noutros termos, UM DEUS. A palavra Deus significa o ponto culminante de tudo que é físico e espiritual. Significa o Centro único donde procedem todas as coisas, todas as atividades, todos os atributos, faculdades, funções e princípios que, por fim, ao mesmo Centro voltarão. O homem pode esperar a concretização de sua aspiração quando agir em harmonia com a lei universal. A teoria universalmente aceita da sobrevivência dos mais aptos e a verdade absoluta de que o forte suplantará o fraco, são tão certas no reino animal como no reino espiritual.Uma gota de água não pode, por si, correr em sentido contrário ao da corrente de que participa. É o homem, em toda a sua vaidade e pretensão de sabedoria, mais do que uma gota de água no oceano da vida universal?

Para obedecer à lei precisamos aprender a conhecê-la. Mas, como pode alguém conhecer a lei pura e distingui-la da adulterada, a não ser no estudo da natureza espiritual, em seus aspectos internos e externos? Só um Livro existe que o aspirante ocultista precisa conhecer, livro em que se acha contida toda a Doutrina Secreta, com todos os mistérios conhecidos unicamente pelos iniciados. Tal livro nunca foi modificado ou erroneamente traduzido, nunca foi objeto de fraudes piedosas nem de interpretações absurdas. Está ao alcance de todos, tanto dos mais favorecidos de riquezas como dos mais pobres. Todos podem compreender sua linguagem, sem distinção de idioma ou de nacionalidade. Seu título é M, que significa “O Macrocosmos e o Microcosmos reunidos em um volume”. Para bem compreende-lo, importa lê-lo com os olhos da inteligência e com os do espírito. Se penetrarmos nas suas páginas só com a luz do cérebro, fria como a luz da lua, as páginas parecerão mortas e ensinarão somente o que está impresso numa superfície. Mas, se a luz divina do amor irradia do coração, iluminará as páginas o os sete selos que fecham os capítulos romper-se-ão, um após outro, serão erguidos os véus que os cobrem e conheceremos os mistérios divinos que jazem no santuário da Natureza.

Sem esta luz divina do amor ó inútil tentar penetrar no desconhecido, onde permanecem os mais profundos mistérios. o que estudam a natureza com a mera luz dos sentidos nada mais conhecerão do que u’a máscara exterior. Em vão podem esperar que lhe ensinem os mistérios. Unicamente com a luz do espírito poderão ser compreendidos, razão de se dizer que a luz brilhou nas trevas e as trevas não a compreenderam.

A luz do espírito somente se encontra no íntimo. O homem só pode conhecer o que existe dentro de si; não pode ver nem ouvir nem perceber nenhuma coisa externa;   só   contempla   as imagens e experimenta as sensações que, em sua consciência, produzem os objetos exteriores.   O que ao homem pertence é um resumo, uma imagem do universo. Ele é o Microcosmos da Natureza, nele se acha em germe, mais ou menos desenvolvido,  tudo quanto  a natureza contém. Nele residem Deus, Cristo e o Espírito Santo. Nele vivem a Trindade, os elementos dos reinos vegetal, animal e espiritual; ele contém o Inferno e o Céu e o Purgatório: — tudo está nele porque é a imagem de Deus e Deus é a causa de tudo que existe. Nada existe que não seja manifestação de Deus e de que se não possa dizer, em certo sentido, que seja Deus ou a substância de Deus.

O Universo é a  manifestarão daquela Causa ou Poder interno a que os homens chamam Deus. Para estudar as manifestações desse poder, temos que estudar as impressões que produz em nosso íntimo. Nada se pode conhecer fora do que existe em nós. O estudo da natureza não é, nem pode ser, nada mais do que o estudo do eu, ou, por outras palavras, o estudo das impressões internas a que as causas externas deram lugar. Positivamente, o homem não pode, de maneira nenhuma, conhecer nada, a não ser o que vê, sente ou percebe na intimidade do seu ser; todos os conhecimentos sobre as coisas são meras es­peculações e suposições; podemos chamar-lhes verdades relativas.

Conseqüentemente, se não lhe é possível conhecer algo sobre as coisas fenomênicas senão quando as veja, sinta ou perceba em si, como é possível saber das coisas internas que não sejam manifestadas em seu íntimo? Todos os que buscam um Deus no mundo externo, em vez de procura-lo em seus corações, em vão o procuram. Todos os que adoram um rei desconhecido na criação, enquanto fazem por abafar um rei recém-nas­cido em seus corações, adoram uma ilusão. Se aspiramos conhecer a Deus e obter a Sabedoria divina, devemos estudar a atividade do Divino Princípio em nossos corações. Devemos escutar-lhe a voz com o ouvido da inteligência e ler as suas palavras com a luz do divino amor, porque o único Deus que o homem pode conhecer é o seu próprio Deus pessoal, uno com o Deus do Universo. Por outro modo dizendo, Deus universal entra cm relação com o homem e alcança personalidade por meio do organismo a que chamamos homem. É assim que Deus se faz homem e o homem se transforma em Deus. Mas tal transformação efetua-se apenas quando obtém o conhecimento perfeito do divino Ego ou, em termos diferentes, quando Deus se faz consciente de si mesmo e alcança no homem ciência de si mesmo.

Portanto, não pode haver sabedoria divina nem conhecimento do próprio Eu Divino senão depois que, encontrando o Eu Divino, o homem se faz sábio. Não sejam os especuladores da ciência e da teologia tão presumidos para dizer que encontraram o próprio Divino Ego. Se o tives­sem encontrado estariam na posse de poderes divinos, desses que possuem os homens “sobrenaturais”, quase desconhecidos entre a humanidade. Se os homens encontrassem seus Divinos Egos, não precisariam de pregadores, nem de doutores, nem de mais livros, nem de outras instruções que as mutuadas do seu Deus interno. Porém, a sabedoria dos nossos sá­bios não é sabedoria de Deus, procede de li­vros, de fontes externas e falíveis. Convém saber que o sentimento do Ego ao qual os homens chamam seu próprio “eu”, não é o do Ego Divino mas o do Ego animal ou intelectual em que sua consciência se concentra. Cada homem tem um grande e variado número destes egos ou eus. Deverão perecer e desaparecer todos, antes que o Eu Divino, universal e onipresente, possa vivificar a existência do homem. Ai dos homens se conhecessem seus pró­prios eus animais e semi-animais! A aparição enchê-lo-ia de horror. As qualidades predominantes na maioria dos homens são a inveja, a cobiça, o sibaritismo, a ambição, etc.. Estes os poderes ou deuses que gover­nam os homens. A eles se aferram com amor e carinho como se fossem seus próprios eus. Tais egos, em cada alma de homem, assumem a forma que corresponde ao seu caráter (cada caráter corresponde a uma forma, produz uma forma). Estes eus ilusórios carecem de vida própria, alimentam-se do princípio da vida em cada homem, vivem graças à sua vontade e dissolvem-se com a vida do corpo ou pouco depois. Imortal, que existiu c existirá para sempre, é unicamente o Espírito Divino. No homem, os elementos perfeitos e puros, unidos ao espírito divino, continuarão vivendo.

Este Ego Divino não experimenta o sentimento de separação que tanto domina nossos eus inferiores; como o espaço, não estabelece distinção entre si e os demais seres humanos; vê-se e a si mesmo se reconhece em todos os outros seres. Porém, vivendo e sentindo com os outros seres, não morre com eles porque, sendo já perfeito, não requer transformações. Este é o Deus ou Brahma, so­mente reconhecível pelo que se tornou divino. É o Cristo, jamais compreendido pelo que leva em sua fronte o sinal da Besta, o AntiCristo, símbolo do intelectualismo sem espiritualidade ou da ciência sem amor divino. Só pode ser conhecido pelo poder da fé verdadeira, essa espiritual sabedoria que penetra até ao centro ardente do amor existente no coração do Uno. Este centro do Amor, da Vida e da Luz é a origem de todos os poderes. Nele se contêm todos os germes e mistérios, fonte da revelação divina. Se encontrares a luz que irradia daquele centro, não necessitarás de mais ensinos, achaste a vida eterna e a verdade absoluta.

O grande erro da nossa época intelectual é crerem os homens que podem chegar ao conhecimento da verdade por meras especula­ções intelectuais, científicas, filosóficas ou teológicas, isto é, tão só pelo raciocínio. A teoria oculta deve ser conhecida, mas seria um mero conhecimento teórico, que não prestaria para nada, se não fosse confirmada, experimentada c realizada por meio da prática. Que aproveita ao homem falar muito so­bre o amor e, como papagaio, repetir o que ouviu ou leu, se não sente em seu coração o poder divino do amor? De que lhe servirá falar sabiamente da sabedoria, se não é um sábio? Ninguém chega a ser um bom músico, soldado ou estadista só pela leitura dos livros. O  poder  não se obtém  por simples especulação, mas pela prática. Para conhecer o bem há que pensar e praticar o bem; para experimentar a sabedoria é preciso ser sábio. Amor que não encontre expressão em ações não obtém nenhuma força. Caridade que só exista na imaginação, será sempre imaginária se não for expressa em atos. A toda a ação corresponde uma reação. Por isso, a prática das boas ações robustece o amor ao bem que, por sua vez, se manifes­tará em forma de novas boas ações.

Quem, não sabendo agir bem, age mal, é digno de compaixão; porém, quem sabe como agir bem e age mal, sabe intelectualmente que é digno de condenação. Esta a razão por que é peri­goso para os homens” receber instruções sobre a vida superior se a sua vontade é má. Depois de aprendermos a distinguir entre o bem e o mal, optar pelo caminho do mal torna-nos mais responsáveis que antes. Estas cartas não teriam sido escritas se não houvesse esperança de encontrar, entre os seus leitores, alguns que, além de compreen­derem intelectualmente seu conteúdo, entrem resolutamente no caminho prático. A porta deste caminho é o conhecimento do Eu. Ela conduz à união com deus e sua primeira conseqüência é o reconhecimento do princípio da Fraternidade Universal.

(Cartas Rosacruzes)

 

(HUGO LAPA)

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